Os maiores erros de interpretação da história

 

Por Tony Rosado (Traduzido por Davi Seabra)

Ser um intérprete não é nada fácil: além de lidar com uma ampla variedade de temas e assuntos, você depende só do seu cérebro. Todos os intérpretes profissionais cometem erros uma vez ou outra e antes de nos aposentarmos ainda erraremos mais um bocado.  Felizmente, os bons intérpretes sabem reconhecer um equívoco e tem a honestidade e profissionalismo para reconhecê-los e corrigi-los.  Todos sabemos como corrigir uma falha de dentro da cabine, ou na sala de cirurgia, ou no tribunal. Isso já é o bastante na maioria dos casos e há ainda o Seguro de Responsabilidade Profissional que nos ajuda com os erros de maior magnitude que ocorrem na prática de nossa profissão.

A maior parte das mancadas são corrigidas com um pedido de desculpas e uma boa dose de vergonha, o famoso carão. E infelizmente, às vezes os intérpretes cometem erros que podem literalmente impactar o mundo inteiro. Sei que existem muitos exemplos de erros catastróficos e sei de tantos outros que não escreverei aqui no post. Para decidir o que publicar e retomar o ponto em que nenhum de nós intérpretes está a salvo de erros assim (e para isso estamos sempre em alerta), considerei a relevância do erro e a variedade de intérpretes que o repetiram. Estes são os maiores erros de interpretação da história que compõe a minha lista:

Em 2006, em uma interpretação, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pediu que Israel fosse apagado do mapa. Posteriormente, tomou-se conhecimento que o que o presidente disse foi: o regime que ocupa Jerusalém deveria cair no esquecimento. Independente da sua opinião sobre esse assunto, está claro que o significado está bem diferente do entendido pelo intérprete. Em uma região tão delicada como o Oriente Médio um erro desses pode ter graves implicações políticas.

Continuemos com mais presidentes, em 1976 o presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter falou para um público polaco e abriu o seu discurso dizendo: hoje de manhã, saí dos Estados Unidos [...]. A interpretação feita foi: hoje eu abandonei os Estados Unidos. Os que estavam ali presentes riram do erro evidente, e as coisas ficaram ainda mais complicadas mais adiante no discurso quando o presidente disse: “... vim para ter conhecimento de suas opiniões e entender o que vocês desejam pro futuro...” O mesmo intérprete disse: “eu sinto desejo carnal pelos poloneses” e depois continuou criticando a constituição polonesa. Claro que estes erros nunca deveriam acontecer dessa forma, mas às vezes acontecem.

Isso me lembra a famosa gafe que aconteceu durante o discurso de Nikita Khrushchev (Secretário Geral do governo soviético durante grande parte da Guerra Fria) na embaixada da Polônia, em Moscou, quando o intérprete disse, fazendo referência aos EUA e ao Ocidente em plena Guerra Fria: nós vamos enterrar vocês. Agora já se sabe que o que disse foi: “nós resistiremos perante vocês” e todos sabemos quais as consequências desta infeliz interpretação num ponto tão crítico da nossa história.

Em julho de 1945 logo depois que os EUA emitiram a Declaração de Potsdam que demandava a rendição do Japão na Segunda Guerra, o primeiro ministro japonês Kantaro Suzuki chamou uma coletiva de imprensa e em dado momento disse: “não iremos comentar nada agora... ainda estamos decidindo”. Infelizmente, o que o intérprete disse foi “ ignoramos a declaração com desdém”. Nem é preciso dizer o que aconteceu logo depois.

Em 1980 Willie Ramirez, um rapaz de 18 anos, deu entrada num hospital da Flórida em estado de coma. Quando em que o paciente entrou, o intérprete cometeu o erro de traduzir do espanhol a palavra intoxicado para o inglês intoxicated, que em inglês faz referência ao consumo de álcool ou drogas. O rapaz Willie, sofrendo uma hemorragia cerebral, foi encaminhado para tratamento contra overdose. Willie saiu do hospital paraplégico.

São Gerônimo, o santo protetor dos tradutores, estudou hebraico para traduzir o Antigo Testamento para o latim. A tradução de Gerônimo tem um erro interessante: quando Moisés volta do Monte Sinai tinha raios de luz na cabeça, em hebraico: karan. Porém, como o hebraico é escrito sem vogais, Gerônimo interpretou como keren, que quer dizer chifrudo, com chifres. Por conta desse erro, Michelangelo fez a famosa estátua de Moisés com chifres.

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Estátua de Moisés feita por Michelangelo na Capela de São Pedro, Vaticano.

 

 

Por fim, todos nos lembramos de Thamsanqa Jantjie, o intérprete de linguagens de sinais do funeral de Nelson Mandela. Jantije fez movimentos aparentemente de linguagem de sinais mas que não tinham sentido algum. Desde então ele foi encaminhado para um hospital psiquiátrico que trata pacientes com esquizofrenia. 

A nós, intérpretes, a lição que fica está bem clara: é nosso dever proteger a nossa profissão de impostores, clientes ignorantes, aspirantes a intérpretes e agências inescrupulosas, mas também medir o que dizemos e fazemos. Ninguém está a salvo de erros, assim a nossa única escolha é continuar a praticar e a estudar, recusar com honestidade as tarefas para as quais não estamos preparados e sempre que necessário procurar colegas que nos ajudem, seja na cabine, no hospital, no tribunal, ou em qualquer outro lugar.

Rodrigo Guedes